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24 de jan. de 2021

É incoerente que anti-socialistas acreditem em Teorias da Conspiração

Por que o socialismo não funciona?

Segundo Hayek, porque é impossível reunir toda a informação necessária para controlar um sistema tão complexo quanto a economia de um país inteiro. Há sempre inúmeras variáveis que fogem do controle dos planejadores centrais. Este foi o principal e mais influente argumento de Hayek contra o socialismo, apresentado ao mundo em um de seus mais importantes textos: O Uso do Conhecimento na Sociedade.

Resumindo então, o socialismo não funciona porque é impossível controlar coisas muito complexas.

Conspirações tendem a falhar pelo mesmo motivo, por isso eu me espanto com a quantidade de conservadores que usam os argumentos de Hayek quando o assunto é socialismo, que acreditam que um pequeno grupo de pessoas consegue controlar países, governos, veículos de mídia, universidades e as mais diversas instituições e ainda de forma discreta, sem que ninguém perceba.

Karl Popper, que teve uma boa influência de Hayek, explica isso melhor em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos:

"Não quero sugerir que as conspirações nunca acontecem. Pelo contrário, são fenômenos sociais típicos. Elas se tornam importantes, por exemplo, sempre que pessoas que acreditam na teoria da conspiração entram no poder. E as pessoas que sinceramente acreditam que sabem como construir o paraíso na terra provavelmente adotarão a teoria da conspiração e se envolverão em uma contra-conspiração contra conspiradores inexistentes. Pois a única explicação de seu fracasso em produzir seu paraíso é a intenção maligna do Diabo, que tem interesse no inferno.

Conspirações ocorrem, isso deve ser admitido. Mas o fato surpreendente que, apesar de suas ocorrências, refuta a teoria da conspiração é que poucas dessas conspirações são bem sucedidas. Conspiradores raramente consumam sua conspiração.

Por que isto é assim? Por que as conquistas diferem tão amplamente das aspirações? Porque este é geralmente o caso na vida social, conspiração ou não conspiração. A vida social não é apenas uma prova de força entre grupos opostos: é a ação dentro de uma estrutura mais ou menos resiliente ou frágil de instituições e tradições, e cria - à parte de qualquer contra-ação consciente - muitas reações imprevistas nesse contexto, algumas delas talvez até imprevisíveis.

Uma das ações econômicas mais primitivas pode servir de exemplo para tornar bem clara a ideia de consequências não intencionais de nossas ações. Se um homem deseja urgentemente comprar uma casa, podemos seguramente assumir que ele não deseja aumentar o preço de mercado das casas. Mas o próprio fato de ele aparecer no mercado como comprador tenderá a elevar os preços do mercado. E observações análogas valem para o vendedor. Ou, para dar um exemplo de um campo muito diferente, se um homem decidir segurar sua vida, é improvável que ele tenha a intenção de encorajar algumas pessoas a investir seu dinheiro em ações de seguro. Mas ele fará isso mesmo assim. Vemos aqui claramente que nem todas as consequências de nossas ações são consequências intencionais; e, consequentemente, que a teoria da conspiração da sociedade não pode ser verdadeira porque equivale à afirmação de que todos os resultados, mesmo aqueles que à primeira vista não parecem ser intencionados por ninguém, são os resultados pretendidos das ações das pessoas que estão interessadas nesses resultados."

Resumindo a explicação de Popper, grandes conspirações tendem a não funcionar pelo mesmo motivo que o socialismo não funciona: porque é impossível ter controle sobre coisas muito complexas. Quando você tenta controlar coisas muito complexas, é comum que surjam consequências não-intencionais e que as coisas acabem fugindo do seu controle.

20 de jan. de 2021

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos: Um livro atual e necessário

Havia muito tempo que eu queria ler este livro e já tem uns dois anos que li. Enquanto lia, fui fazendo algumas anotações que pretendia transformar num artigo mais tarde. Aqui finalmente está o resultado. Antes de tudo, devo avisar que esta resenha se refere apenas ao volume I do livro, que examina as ideias de Platão. O segundo volume, que trata das ideias de Marx e Hegel, ficarão para, quem sabe, um artigo futuro, mas isso não vem tanto ao caso porque são as ideias originais do próprio Popper, expressas nesse livro, que mais me interessaram.

Três fatores estimulavam minha curiosidade quanto a este livro, o primeiro é a importância de Karl Popper para o pensamento liberal do século XX. Este me parecia um livro fundamental para o liberalismo moderno, então eu me sentia na obrigação de lê-lo. O segundo é a importância de Popper para a própria filosofia. Trata-se de um autor tão influente e respeitado na filosofia política quanto na filosofia da ciência, e esse é um posto que poucos pensadores recentes conseguiram alcançar. E o mais importante: Sua filosofia política e sua filosofia da ciência estão intimamente conectadas, então a leitura me parecia fundamental para entender melhor as bases epistemológicas do liberalismo. Outro fator foi a suposta influência de Popper sobre George Soros. O pouco que eu havia ouvido falar da filosofia de Popper de segunda mão, parecia totalmente incompatível com os projetos sociais e políticos financiados por Soros. Adianto que essa impressão foi reforçada com a leitura do livro. A conclusão que eu cheguei foi a de que, de fato, George Soros deturpou Karl Popper. Soros parece representar muito mais a filosofia historicista de Francis Fukuyama que, aliás, tem ligações com Soros, do que a filosofia anti-historicista de Popper.

Vamos então mergulhar neste livro que mudou a forma como eu vejo o mundo, nessa obra que ofereceu a argamassa que uniu minha visão sobre diversos assuntos e me ajudou a conciliar de forma coerente minhas opiniões sobre liberdade e democracia, ciência, moral e religião, progresso e tradição, dentre vários outros tópicos.

Dualismo crítico

Embora David Hume não seja citado diretamente por Popper neste livro, sabendo da influência do primeiro sobre o segundo, podemos presumir que o conceito de Dualismo Crítico de Popper é uma consequência lógica da Navalha de Hume.

Estes dois conceitos filosóficos me causaram uma forte impressão e me influenciaram de uma forma irreversível, além de serem fundamentais para encerrar algumas polêmicas muito atuais, por isso quero começar falando deles.

A Navalha de Hume dizia que não podemos tirar conclusões morais tão facilmente a partir de fatos, que deve existir uma separação rígida entre matérias de fato e matérias de moral. Não entendeu? Calma que é mais fácil entender a importância desse conceito quando você olha para as conclusões absurdas que podem surgir da sua não aplicação.

Quando você tenta usar fatos para fazer juízos morais ou de valor, você cai na Falácia Naturalista. E quando você tenta usar juízos de valor para constatar fatos, você cai na Falácia Moralista.

Exemplos de Falácia Naturalista:

“Tudo o que é natural é bom.”

“Maconha é uma erva natural, portanto, não faz mal.”

“Transgênicos fazem mal porque são modificações da natureza.”

“Medicina natural é melhor do que remédios produzidos pela indústria.”

Veja bem, supondo (apenas supondo) que maconha realmente não faz mal, não é o fato de ser natural que prova isso. Nem tudo o que é natural é bom. Se maconha não faz mal, cogumelos venenosos certamente fazem, e também são naturais. A Falácia Naturalista parte do pressuposto de que tudo o que é natural é bom. Você certamente deve se lembrar de vários outros exemplos dessa falácia, na verdade, eu costumo ouvir exemplos dela diariamente, o que confirma a importância e a atualidade desse tópico.

Exemplos de Falácia Moralista:

“Homossexualidade é imoral, logo, não pode ser inata.”

“Matar animais é cruel, logo, não existe utilidade fisiológica em comer carne.”

“Egoísmo é ruim, logo, não faz parte da natureza humana.”

“Homens e mulheres têm direitos iguais, logo, não existem diferenças biológicas entre homens e mulheres.”

Note que a Falácia Moralista parte do mesmo pressuposto falso de que tudo o que é natural é bom, só faz o caminho lógico inverso. Projetam-se valores morais sobre a natureza, como se a natureza ou a realidade fossem obrigadas a se conformar aos nossos critérios morais. É bom deixar claro também que não estou rejeitando, de início, nem as premissas, nem as conclusões das afirmações acima, só estou dizendo que não dá pra derivar uma coisa da outra.

Outro autor liberal que aplicou a Navalha de Hume à filosofia social foi Robert Nozick ao falar sobre “sociologia normativa”. Esse conceito renderia um artigo à parte, mas gostaria de citar um exemplo que confirma a importância e a atualidade desse assunto. O exemplo é o seguinte: “O machismo é ruim, logo, a diferença salarial entre homens e mulheres é causada pelo machismo.”

Realmente, o machismo é muito ruim e talvez, ele realmente seja a causa da desigualdade salarial entre homens e mulheres. Talvez. É papel das ciências sociais, nesse caso, da sociologia e da economia, fazer uma análise POSITIVA e científica das causas da desigualdade salarial entre homens e mulheres. É papel da ciência, descobrir relações de causa e efeito, não podemos deixar que uma premissa moral, ou seja, NORMATIVA, influencie uma análise que deve ser exclusivamente POSITIVA. Até porque, talvez algo tão ruim ou pior que o machismo seja a causa, e se errarmos no diagnóstico, provavelmente erraremos na solução.

Parte do politicamente correto hoje em dia se baseia nesta falácia. Se você ousa dizer que a causa da desigualdade salarial entre homens e mulheres não é o machismo, algumas pessoas vão pensar que você está tentando minimizar a gravidade do machismo. O que é um absurdo evidentemente. O machismo é ruim, mas nem por isso eu devo achar que ele foi o causador da extinção dos dinossauros.

Mas nada disso está no livro. Essa foi apenas uma breve introdução para que você compreenda o que é Dualismo Crítico. Popper chama a total incapacidade de separar matérias de fato de matérias morais, de separar o positivo do normativo, de Monismo Ingênuo. O Monismo Ingênuo não vê diferença entre as leis morais e as leis da natureza. Ele é um resquício das sociedades primitivas, que achavam que tanto as regras morais quanto as leis da natureza foram escritas pelos deuses e eram portanto, igualmente inquebráveis.

O monismo ingênuo começa a desmoronar quando algumas pessoas entram em contato com outros povos, que adoram outros deuses e que têm regras morais diferentes. Quando eles observam que estes outros povos estranhos não seguem as leis que ele tinha como inquestionáveis sem que nada de mal lhes aconteça, é que eles percebem que as leis da natureza são inquebráveis e se submeter a elas não é uma opção, mas se submeter às leis morais é opcional. Mas veja bem, dizer que algo é opcional não quer dizer que é livre de consequências. Você é livre para seguir uma regra ou não, mas não está livre das consequências.

Por mais que lhe pareça óbvio agora o quanto o Monismo Ingênuo é, como o nome sugere, ingênuo, lembre-se que as falácias naturalistas e moralistas nada mais são do que consequências dele e ainda são muito comuns hoje em dia. O oposto do Monismo Ingênuo é o Dualismo Crítico, ou seja, a total separação entre leis morais e leis naturais. A dificuldade em se livrar destas falácias, contudo vem do fato de que existem estágios intermediários entre o Monismo Ingênuo e o Dualismo Crítico. São eles o Naturalismo Biológico, o Naturalismo Psicológico ou Espiritual e o Positivismo Ético ou Jurídico. Mas não convém explicar em detalhes cada um deles.

Um exemplo do Naturalismo Biológico é a seguinte afirmação: “Todos os homens nascem iguais, portanto, todos devem ter os mesmos direitos.” Repare que esse argumento, muito comum entre os teóricos do direito natural, o que inclui os precursores do liberalismo, na verdade é outro exemplo da mesma Falácia Naturalista que tratamos anteriormente. Ainda que os homens sejam naturalmente iguais, devemos nos lembrar de que nem tudo o que é natural é necessariamente bom e que, portanto, não temos obrigação nenhuma de nos conformarmos à natureza. Até porque, a mesma Falácia Naturalista já foi usada para defender exatamente o contrário. Defensores da aristocracia diziam que os homens são naturalmente desiguais e que, portanto, deveriam ser tratados de forma desigual. Aristóteles, por exemplo, dizia que era injusto tratar igualmente os desiguais. Platão, mestre de Aristóteles, era outro aristocrata que compartilhava desta mesma opinião.

O dualismo crítico é o fundamento para uma sociedade aberta, enquanto que seus opostos são os fundamentos falaciosos nos quais se sustentam as sociedades fechadas. A sociedade aberta é aquela que está aberta à mudança, ao progresso e ao aperfeiçoamento. A sociedade fechada é aquela cujas leis são tidas como inquestionáveis ou inalteráveis e que, portanto, são estáticas. Se as leis morais estão escritas na natureza, então elas jamais podem ser mudadas. Só o dualismo crítico permite a mudança e o progresso social gradual.

Historicismo e Mecânica social

Antes de entrarmos com mais detalhes nesse próximo assunto, é importante fazer alguns esclarecimentos sobre o tópico anterior que ajudarão a entender este segundo.

Existem leis morais e existem leis naturais com implicações sociais. Por exemplo, o homem precisa comer, se ele não comer, ele morre. Essa é uma lei natural, mas é uma lei natural que tem implicações econômicas e sociais. Essas leis naturais com implicações sociais, Popper chama de leis sociológicas. É papel das ciências sociais estudar estas leis. As leis de mercado, por exemplo, como a lei da oferta e demanda, são exemplos de leis sociológicas.

O dualismo crítico reconhece que não podemos derivar normas morais de fatos, mas reconhece que podemos e devemos julgar quais meios são mais adequados para se atingir um determinado fim. Por exemplo, se você quer levantar uma pedra muito pesada, a ciência positiva é capaz de dizer que usar uma alavanca é melhor do que tentar levantar com as próprias mãos. É uma regra de como agir, mas é uma regra condicionada a um fim. Os fatos podem te dizer qual é o melhor meio para se atingir um fim, mas nunca quais devem ser os fins.

Então, embora as ciências, e isso inclui as ciências sociais, não sejam capazes de validar regras morais, elas são sim capazes de validar os meios que estamos utilizando para se atingir determinado fim. Por exemplo, se queremos crescimento econômico, as ciências econômicas são capazes de mostrar quais políticas são mais adequadas para isso. Agora, diante de um dilema entre mais crescimento econômico ou mais igualdade social, a ciência é incapaz de dar uma solução.

O Dualismo Crítico então permite o progresso social e a sociedade aberta. O Monismo Ingênuo e seus estados intermediários (o naturalismo biológico, o naturalismo psicológico ou espiritual e o positivismo ético-jurídico) tenta confinar a sociedade na estagnação, gerando sociedades fechadas. Mas quem, em sã consciência, não quer que sua sociedade mude para melhor e que não obtenha progresso? – Aqueles que acreditam que não há mais progresso a ser obtido, que há um fim da história e que, ao se chegar ao fim da história, qualquer mudança será para pior. Estes são os Historicistas.

Todos os autores que Popper critica nesse livro, em seus dois volumes, ou sejam, Platão, Hegel e Marx, são mais ou menos historicistas. Os historicistas acreditam que a ciência é capaz de fazer profecias históricas, saber onde a história vai terminar e para onde ela vai inevitavelmente nos levar. Popper rejeita essa hipótese. Ele concorda que é papel da ciência, estabelecer relações de causa e efeito e isso permite algumas previsões de curto prazo, como por exemplo, conhecendo a lei da gravidade, e vendo alguém se jogar do alto de um prédio, eu posso prever que aquela pessoa vai cair, atraída pelo chão e se esborrachar ao se chocar com ele. A ciência quando muito consegue prever o tempo ou uma pequena crise financeira. Previsões mais ousadas do que estas contudo, estão totalmente fora da capacidade atual da ciência.

Pensadores como Platão e Marx, no entanto, não pensavam desta forma. Eles acreditavam ter descoberto o que o futuro nos reserva. A diferença entre os dois é que Marx coloca o estágio perfeito do desenvolvimento humano no futuro, quando a humanidade atingirá o comunismo e Platão por outro lado, o coloca no passado, nas aristocracias tribais e patriarcais de outrora e que sobreviveram até seus dias em cidades como Esparta, acreditando então que a sociedade tende a uma degeneração. Há, evidentemente, níveis diferentes de fé no historicismo. Platão acreditava que a humanidade rumava para a ruína, mas que esta tendência poderia ser revertida, bastava seguir suas diretrizes ao pé da letra. E uma vez atingido o estado perfeito, nada mais deveria mudar, pois nesse caso, qualquer mudança só poderia ser para pior. A sociedade perfeita para os historicistas é uma sociedade fechada.

O oposto do historicismo é a mecânica social ou tecnologia social. Como eu disse no começo desse tópico, a ciência é incapaz de dizer quais fins devemos buscar enquanto sociedade, mas ela é capaz de nos mostrar os melhores caminhos. A mecânica social nada mais é do que a tentativa de usar as ciências sociais para descobrir os melhores meios para se atingir determinados fins. Quer mais liberdade? – O caminho é esse. Quer mais igualdade? – O caminho é esse outro. Para o historicista, por outro lado, os fins já estão dados, os esforços de toda a sociedade devem se concentrar em atingir esse fim e o papel da ciência é interpretar a vontade da história e os sinais dos tempos.

Mas o historicismo não é falseável evidentemente. Como a história é cheia de altos e baixos, qualquer tendência na direção contrária àquela prevista pelo historicista, será vista apenas como mero percalço no longo caminho que leva ao fim da história.

Novamente aqui, temos um estágio intermediário, agora entre o historicismo radical e a mecânica social. A mecânica social que realmente se baseia na ciência de forma realista, Popper chama de mecânica social gradual. A mecânica social que se aproxima demais do historicismo, é a mecânica social utópica.

O problema das utopias

A diferença entre a Mecânica Social Utópica e a Mecânica Social Gradual é que a primeira tenta usar a ciência para solucionar muitos, quando não todos, os problemas humanos e sociais de uma vez só. No fundo, a mecânica social utópica tem um pouco do historicismo porque acredita na possibilidade de se chegar a uma sociedade perfeita, ou no fim da história. Marx é um exemplo de historicista radical. Ele acreditava que vamos atingir o comunismo, não importa o que aconteça no meio do caminho. Platão já era alguém mais próximo de um tecnologista social utópico, pois acreditava que algumas ações eram necessárias para se mudar o curso natural da história. O que ambos tinham em comum era a crença na possibilidade de uma sociedade perfeita.

Como você pode imaginar, Popper defende mais uma vez que essa arrogante pretensão também está fora das capacidades da ciência. Para Popper, a sociedade aberta e a mecânica social gradual são baseadas em autêntica ciência, pois se comportam tal como a própria ciência. Da mesma forma que a ciência, em especial a de Popper, não acredita em verdades absolutas, que toda verdade deve estar aberta a questionamentos e que isso é o que permite o progresso científico, também a sociedade não pode conhecer o bem absoluto, somente um progresso gradual de eterno aperfeiçoamento.

O objetivo de uma sociedade aberta não é buscar o bem absoluto, mas evitar o mal tanto quanto possível. E nas palavras do próprio Popper: “Toda tentativa de se construir um paraíso na Terra, levará inevitavelmente a um inferno.”

Uma das principais vantagens da mecânica social gradual em comparação com a utópica é dada por Popper: Se um modelo utópico de sociedade sai errado, é necessário jogar todo o seu conjunto fora e começar do zero (isso quando o viés de confirmação dos utópicos não lhes impede de reconhecer que seu modelo perfeito falhou), fazendo com que todo o esforço anterior tenha sido em vão e pior, a sociedade é prejudicada como um todo e em todos os seus aspectos. Quando você tenta uma cura holística para a sociedade e ela falha, a sociedade como um todo permanece doente ou fica ainda mais doente.

Já quando você erra na solução para um problema social específico, isso só afeta as pessoas diretamente envolvidas com aquele problema, não a sociedade inteira, e você não tem que jogar fora todas as conquistas sociais anteriores.

Agora Popper vai mais além: A sociedade aberta não é só uma sociedade que progride, ela é uma sociedade livre. Já a sociedade fechada, não é só estagnada, ela é necessariamente totalitária.

Como o Dualismo Crítico reconhece que a ciência não é capaz de determinar quais fins a sociedade deve buscar como um todo, numa sociedade aberta somos livres para buscar os fins que desejamos ou que nossa consciência individual nos dita. Uma sociedade fechada por outro lado, busca um finalidade última, todos os meios portanto, devem se conformar à busca por este fim, por este objetivo comum. Todos os esforços da sociedade devem se voltar para o mesmo objetivo e desvios não podem ser tolerados. Na sociedade aberta, o estado existe para servir os indivíduos enquanto estes buscam seus próprios fins. Numa sociedade fechada, o estado é um organismo, os indivíduos são meras células deste organismo buscando um fim pré-estabelecido.

Democracia, mudança sem violência e o ditador benevolente

Aqui chegamos em outro ponto importantíssimo do livro e também muito atual. Tem-se dito que os liberais são contrários à democracia, que o liberalismo termina onde começa a democracia, que a decisão individual acaba onde começa a decisão coletiva e que portanto, os liberais devem argumentar contra a democracia, buscando inclusive argumentos aristocráticos contra ela. Popper demonstra que isso é uma enorme bobagem.

Óbvio que a democracia tem seus problemas, evidente que ele nem sempre, ou melhor, quase nunca, elege os melhores representantes, mas aqui vamos retomar uma das principais mensagens que Popper tenta passar: O objetivo de uma sociedade aberta não é buscar o bem supremo, é evitar o mal tanto quanto possível. A democracia tem problemas mas é melhor que sua alternativa, a ditadura.

Uma vez que o estado é necessário, que o governo existe para servir os indivíduos e que a sociedade deve estar aberta ao progresso social constante, será inevitável trocar de governantes de tempos em tempos. A democracia apenas permite que esta troca se dê de forma pacífica e não por meio de guerras civis e revoluções violentas. A democracia exige o exercício da política por meios pacíficos e por isso favorece a razão, enquanto que um governo não democrático só pode ser derrubado com violência, fazendo com que o embate aconteça na forma de combate violento e não de debate racional. As imperfeições da democracia não são resultado da ausência de razão do povo, mas de sua razão imperfeita.

Alguns liberais acreditam que a maioria não deve ter o poder de tirar as liberdades e direitos das pessoas. Eu concordo que, mesmo uma democracia, não pode permitir uma maioria simples de 50% mais um, tenha o poder de rever os direitos mais fundamentais dos indivíduos, mas é importante lembrar que não podemos ter um conhecimento perfeito sobre nada, muito menos sobre o significado da liberdade e seus limites. Nossa compreensão sobre a liberdade e a melhor forma de exercê-la, evoluiu muito com o passar dos séculos e deve continuar evoluindo. Não podemos pegar a nossa atual compreensão da liberdade e transformá-la num dogma estacionário, impossível de ser revisto. Uma sociedade liberal sem democracia, portanto, pode acabar se tornando uma sociedade fechada, uma vez que seria uma sociedade eternamente presa a uma concepção ultrapassada de liberdade.

Outra crítica comum tanto à democracia, quanto à sociedade livre, é que a liberdade às vezes parece contraditória. Uma democracia pode acabar elegendo um ditador, como diversas vezes aconteceu. Uma sociedade de liberdade absoluta é uma sociedade onde uns tiram a liberdade de outros. Mas todas as demais alternativas caem em contradições semelhantes.

Se você diz que quem governa deve ser o povo e que o povo pode escolher ser governado por um tirano, da mesma forma, se você diz que quem deve governar é o mais sábio (como Platão achava) pode acontecer do mais sábio decidir que o povo deve governar. A liberdade e a democracia só são contraditórias se você as toma como bens absolutos e que precisam existir de forma absoluta. Mas uma sociedade aberta, novamente, não busca o bem absoluto, nem a liberdade absoluta, nem a democracia absoluta, ela busca somente evitar o mal, evitar a tirania e evitar a opressão tanto quanto possível.

Os utópicos e historicistas também acabavam caindo, de uma forma ou de outra, na crença ingênua do ditador benevolente. Marx o via encarnado no Partido Comunista e Platão o via na figura do Rei Filósofo.

Popper enumera uma série de argumentos contrários e uma infidade de dificuldades para o ditador benevolente e para a mecânica social utópica.

A primeira dificuldade é fácil de prever: O ditador benevolente pode deixar de ser benevolente. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, como diria Lord Acton. Outra dessas dificuldades ocorre mesmo quando o ditador possui boas intenções, neste caso, é saber se suas boas intenções estão sendo atingidas, já que um ditador não é muito aberto a queixas e, portanto, não pode saber se está no caminho certo. No caso de um ditador tentando construir uma utopia, essa dificuldade é potencializada.

Outro problema é que a utopia só pode ser colocada em prática no longo prazo, em mais de uma geração de ditadores benevolentes. O problema é que o ideal de uma geração pode não ser o ideal da geração seguinte, assim, a geração seguinte muda de rumo e todo o esforço da geração anterior acaba sendo em vão. Ainda que essa mudança seja pequena, quanto do projeto original pode mudar no decurso de sua realização?

Construção Social não é o mesmo que arbitrariedade

Se você leu até aqui, você ainda deve estar cheio de perguntas sem respostas. Você deve estar se perguntando: Se não podemos derivar máximas morais a partir de fatos, vamos derivá-las de onde então? Sinto muito te decepcionar, mas o livro acaba sem responder esta pergunta. Se isso abre margem para o relativismo moral, ou pior, para o niilismo moral? É uma pergunta pertinente, mas acho que minha resposta é não. O fato de não sabermos essa resposta, não significa que essa resposta não exista. O fato de não sabermos de onde tirar nossos valores morais, não significa que não temos de onde tirar. Podemos achar outra fonte que não sejam os fatos da realidade (que como vimos, não é uma boa fonte).

Popper deixa claro que o fato de que podemos escolher a qual conjunto de regras vamos nos submeter, não significa que nós simplesmente inventamos as regras. Podemos descobrir essas regras de alguma forma. Popper diz que o filósofo grego Protágoras foi um dos primeiros Dualistas Críticos, mas ele acreditava que as regras morais não poderiam ser descobertas sem auxílio divino. Até por isso, o Dualismo Crítico não é incompatível com a religião.

Popper é muito claro ao explicar que, embora a sociedade seja livre para escolher seu próprio conjunto de regras, isso não significa que qualquer conjunto seja tão bom quanto qualquer outro. Pelo contrário, só podemos fazer uma escala de valores, de julgar quais conjuntos de regras são melhores ou piores, porque somos indivíduos livres e racionais.

Isso nos traz a outra questão muito atual: Recentemente, tem-se relativizado muitos valores morais tradicionais sob a desculpa de que são “construções sociais”. Não são leis imutáveis e inquebráveis da natureza, como pensa o Monismo Ingênuo, são meras convenções sociais, acordos feitos entre os indivíduos de uma sociedade. O Dualismo Crítico confirma essa alegação. O problema é que essas alegações quase sempre saem da boca de um pretenso progressista tentando nos convencer a abraçar uma mudança social de forma acrítica, como se esse argumento bastasse para aceitar toda e qualquer mudança que os autoproclamados progressistas ofereçam. A sociedade pode e deve mudar, mas isso não significa que ela deve mudar sempre, em qualquer circunstância e para qualquer direção. O Dualismo Crítico não implica em arbitrariedade. Dizer que não podemos ficar parados é muito diferente de dizer que devemos vagar ao léu.

George Soros deturpou Karl Popper

Chegamos num dilema: Popper é um progressista, por defender uma sociedade que deve estar em constante mudança, buscando o progresso, ou era um conservador, na medida em que defendia mudanças graduais e rejeitava as utopias? A resposta é: Nenhum dos dois. Essa é uma falsa dicotomia, como já expliquei em outro artigo e essa ambiguidade é característica do bom pensador liberal. Qualquer liberal que não pareça progressista e conservador ao mesmo tempo, está no caminho errado.

Diante disso, conclui que qualquer tentativa de interpretar Popper sob uma ótica totalmente conservadora ou totalmente progressista, é falsa e enviesada. George Soros, na minha humilde opinião, interpretou Popper sob uma ótica excessivamente progressista. E isso porque estou sendo generoso em considerar que George Soros realmente age sob alguma influência do pensamento de Popper. Mas para não ser muito repetitivo, deixo aqui como sugestão, este artigo em que analiso o pensamento de George Soros, tomando como base um artigo escrito pelo próprio.


Os argumentos de John Stuart Mill em favor da liberdade de expressão absoluta

Quem foi John Stuart Mill?

Provavelmente apenas outro desses liberais reacionários que procuravam justificar os preconceitos e o elitismo da burguesia. Argumentava em favor da liberdade de expressão apenas para poder destilar seu discurso de ódio impunemente, não é mesmo?

Com certeza não era esse o caso. John Stuart Mill foi um dos pensadores mais progressistas de seu tempo, defendeu uma síntese entre a democracia rousseauniana e o governo constitucional defendido pelos liberais clássicos, defendeu o sufrágio universal, o voto feminino, e junto com sua esposa, Harriet Taylor, foi um dos precursores do feminismo, além de ter sido um proeminente abolicionista.

Apesar de ter defendido o liberalismo econômico, a teoria econômica de Mill fez uma defesa prévia de intervenções pontuais do estado na economia, dando origem a0 liberalismo moderado. Por conta disso, John Stuart Mill foi chamado de socialista por outros liberais de seu tempo, até que se irritou com tudo aquilo e acabou se considerando socialista mesmo no final da vida, embora jamais tenha revisado ou demonstrado qualquer arrependimento por sua teoria econômica liberal.

Os argumentos

Todos os trechos citados aqui foram tirados do Ensaio Sobre a Liberdade, que dedica quase metade de suas páginas para defender a Liberdade de Expressão. Primeiro devemos começar pontuando que Liberdade de Expressão para John Stuart Mill significa “Liberdade Absoluta de Opinião”. No Capítulo I do seu Ensaio, Mill deixa claro:

“Tal esfera é a esfera adequada da liberdade humana. Ela abrange primeiro, o domínio íntimo da consciência, exigindo liberdade de consciência no mais compreensivo sentido, liberdade de pensar, e de sentir, liberdade absoluta de opinião e de sentimento sobre quaisquer assuntos, práticos, ou especulativos, científicos, morais ou teológicos.”

em outro trecho:

“Nenhuma sociedade é livre, qualquer que seja a sua forma.de governo, se nela não se respeitam, em geral, essas liberdades. E nenhuma sociedade é completamente livre se nela essas liberdades não forem absolutas e sem reservas.”

É importante deixar claro que os argumentos a seguir, defendem a Liberdade de Expressão absoluta, e que servem para demolir definitivamente slogans bobos como o de que “liberdade de expressão não é liberdade de opressão” e outras tentativas de abrir exceções ao direito de expressar opiniões livremente. Explicaremos o argumento de Mill em favor da liberdade absoluta mais adiante.

1. Mesmo uma opinião equivocada pode nos ajudar a entender a verdade.

Para Mill, tanto faz se você sufoca uma opinião defendida por muitos ou por um só indivíduo em contradição com todos os demais, ao censurar uma opinião, você não está fazendo apenas um mal contra aquele indivíduo, mas contra toda a humanidade, privando-a do conhecimento daquela opinião. E um dos argumentos de Mill contra a censura é este:

“Se a opinião é certa, aquele foi privado da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se errônea, perdeu o que constitui um bem de quase tanto valor — a percepção mais clara e a impressão mais viva da verdade, produzidas pela sua colisão com o erro.”

Ou seja, não devemos censurar uma opinião, ainda que ela esteja errada, pois o contraste entre a verdade e a opinião errada nos dá uma compreensão melhor da verdade. Uma das formas mais didáticas de se explicar uma verdade é contrapondo-a a uma ideia contrária e falsa.

2. Falibilidade

O segundo argumento de Mill, em suas próprias palavras é o de que

“(…) a opinião que se tenta suprimir por meio da autoridade talvez seja verdadeira. Os que desejam suprimi-la negam, sem dúvida, a sua verdade, mas eles não são infalíveis. Não têm autoridade para decidir a questão por toda a humanidade, nem para excluir os outros das instâncias do julgamento. Negar ouvido a uma opinião porque se esteja certo de que é falsa, é presumir que a própria certeza seja o mesmo que certeza absoluta. Impor silêncio a uma discussão é sempre arrogar-se infalibilidade.”

Mais adiante, Mill aprofunda essa argumentação, explicando que a liberdade de expressão é uma precaução contra a nossa falibilidade.

“Pois que, embora cada um saiba bem, no seu íntimo, que é falível, poucos acham necessário tomar quaisquer precauções contra a própria falibilidade.”

Mill ainda atribui a arrogância dos que se julgam infalíveis à pura e simples estreiteza de visão e ignorância quanto à diversidade existente no mundo e na história.

“(…) àquele para quem o mundo significa algo tão compreensivo como o seu país ou a sua época. E a sua fé na autoridade coletiva não se abala, em absoluto, por vir a saber que outras épocas, países, seitas, classes e partidos pensaram, e ainda hoje pensam, precisamente, o contrário. Ele lança sobre o seu mundo a responsabilidade pela justeza de suas opiniões ante os outros mundos divergentes. E jamais o perturba que um mero acidente tenha decidido qual desses numerosos mundos seja o objeto da sua confiança. Como não o perturba que as mesmas causas que o fizeram anglicano em Londres, o poderiam ter feito budista ou confucionista em Pequim. Contudo, isso é tão evidente por si mesmo quanto é certo que as épocas não são mais infalíveis que os indivíduos – cada época tendo adotado muitas opiniões que as épocas seguintes consideraram não só falsas como ainda absurdas; e que muitas opiniões, agora gerais, serão rejeitadas no futuro, como muitas, outrora gerais, o foram no presente.”

3. Uma ideia verdadeira não teme o debate livre

Mas esse ponto de vista não parece um pouco relativista? Se temos convicção de algo, não devemos lutar por aquilo que acreditamos ser a verdade? Alguns podem até admitir que devemos ter cuidado ao formular nossas opiniões, mas uma vez alcançado um certo grau de certeza, não teríamos o dever moral de cuidar para que ela seja aceita por todos? Não seria até covardia, se abster de impor essa verdade? A isso John Stuart Mill responde que não:

“(…) não se trata da mesma presunção, mas de outra muito mais ampla. Existe a maior diferença entre presumir a verdade de uma opinião que não foi refutada apesar de existirem todas as oportunidades para contestá-la, e presumir a sua verdade com o propósito de não permitir refutação. A completa liberdade de contestar e refutar a nossa opinião, é o que verdadeiramente nos justifica de presumir a sua verdade para os propósitos práticos, e só nesses termos pode o homem, com as faculdades que tem, possuir uma segurança racional de estar certo.”

Resumindo, presumir a verdade de uma opinião porque ela ainda não foi refutada, não justifica impedir sua refutação futura. Proibir as tentativas de refutar uma opinião vigente, não é uma demonstração de convicção e segurança, pelo contrário, é uma demonstração de medo de que ela seja refutada.

4. Só é Liberdade de Expressão se for absoluta

Mas por que a Liberdade de Expressão deve ser absoluta? Tudo bem admitir opiniões divergentes, mas não deveríamos fazer algo para impedir o discurso de ódio, por exemplo? A resposta de John Stuart Mill para os “limites” da liberdade de expressão é a seguinte:

“É estranho que os homens admitissem a validade dos argumentos a favor da livre discussão, mas objetassem que eles são “levados ao extremo”, não vendo que, se as razões não são boas num caso extremo, não são boas em caso nenhum. Estranho, ainda, imaginassem que não se arrogam infalibilidade quando reconhecem que deve haver livre discussão sobre todos os assuntos que se prestem a dúvidas, mas não sobre algum princípio ou doutrina especial que seja suficientemente certa, isto é, a respeito da qual eles estejam certos de que é certa. Chamar de certa alguma proposição enquanto haja alguém que, se fosse permitido, negaria, mas a quem tal não se permite, é presumir que nós, e os que conosco concordam, somos juízes da certeza, e juízes que dispensam a audiência da outra parte.”

Explicando o que ele disse em outras palavras, usando o exemplo da objeção ao discurso de ódio, o problema é: Quem define o que é discurso de ódio? Dizer que tipo de discurso deve ser tolerado e qual não deve, já é em si, uma opinião que merece ser debatida livremente. Portanto, as mesmas razões que justificam a Liberdade de Expressão, justificam a Liberdade de Expressão absoluta. Na verdade, não é Liberdade de Expressão se não for absoluta.

5. Quem define quais ideias são perigosas?

Outra falácia comum em favor da censura é aquela que se diz preocupada com a ordem e a coesão social e não com a verdade. Alega-se que certas opiniões devem ser censuradas, não necessariamente porque são falsas, mas porque são perigosas e podem levar ao caos. Quanto a isso, Mill responde:

“Aqueles, porém, que se satisfazem com isso, não percebem que a presunção de infalibilidade apenas se deslocou de um ponto para outro. A utilidade de uma opinião é ela própria matéria de opinião: tão disputável, tão aberta a debate, exigindo tanto debate, como a própria opinião. Falta um juiz infalível de opiniões para decidir se a opinião é nociva da mesma forma que para decidir se é falsa (…)”

6. Se uma opinião nunca é contestada, seus fundamentos se enfraquecem

Não é possível impedir, absolutamente, que uma nova opinião seja introduzida na sociedade. Sem liberdade de expressão, porém, as opiniões se cristalizam e são transmitidas na forma de meros preconceitos, repetidos e aceitos sem questionamento, até o ponto em que não se conhece mais os argumentos racionais por trás delas. É aí que, uma vez introduzida uma nova opinião, a opinião antiga, mesmo correta, será rapidamente substituída. Mill explica:

“(…) ainda que a opinião aceita não seja apenas verdadeira, mas a verdade toda, só não será assimilada como um preconceito, com pouca compreensão ou pouco sentimento das suas bases racionais, pela maior parte dos que a adotam, se aceitar ser, e efetivamente for, vigorosa e ardentemente contestada.

E não somente isso, mas, em quarto lugar, se tal não se der, o significado mesmo da doutrina estará em perigo de se perder, de se debilitar, de se privar do seu efeito vital sobre o caráter e a conduta: O dogma se tornará uma mera profissão formal, ineficaz para o bem, mas a estorvar o terreno e a impedir o surgimento de qualquer convicção efetiva e profunda, vinda da razão ou da experiência pessoal.”

7. Dialética

Meias verdades (ou meias falsidades) são muito comuns, isso para não dizer que são a regra geral. Uma opinião equivocada pode conter partes da verdade, e uma opinião correta amplamente aceita, pode conter apenas partes da verdade completa. O confronto de ideias, a velha dialética socrática, quando tese e antítese dão origem a uma síntese, é a melhor forma de se chegar a uma compreensão mais completa da verdade. Nas palavras de Mill:

“Existe, porém, um caso mais comum: ao invés de uma das doutrinas em conflito ser verdadeira e a outra falsa, partilham as duas entre si a verdade, e a opinião não conformista é necessitada para completar a verdade de que a doutrina aceita incorpora apenas parte. As opiniões populares, sobre assuntos não evidentes aos sentidos, são muitas vezes verdadeiras, mas raras vezes, ou nunca, completamente verdadeiras. São uma parte da verdade — às vezes uma parte maior, às vezes menor, mas sempre exagerada, adulterada, e desligada das verdades pelas quais se deve acompanhar e limitar. As opiniões heréticas, de outro lado, são, geralmente, algumas dessas verdades suprimidas ou negligenciadas, que quebram as cadeias que as prendem (…)”

8. Outros argumentos

Em outro ponto, Mill cita como exemplos de vítimas de perseguição ideológica, duas figuras muito importantes para a cultura ocidental: Sócrates e Jesus Cristo, ambos vítimas fatais da falta de liberdade de expressão. Mill argumenta que as pessoas que mataram Cristo não são piores seres humanos do que aqueles que hoje pedem alguma forma de censura, estes teriam agido exatamente da mesma forma se tivessem vivido naquela ocasião.

Mill também alerta que, ainda que não exista censura legalmente institucionalizada, o estigma social que carrega os que possuem uma opinião impopular, pode ser quase tão ruim quanto. Excluir ou discriminar socialmente alguém por conta de suas opiniões inibe a participação das pessoas no debate público e isso empobrece, portanto, o debate, faz com que as pessoas tentem amenizar e moderar suas próprias posições e em muitos casos, que tentem até trair suas próprias consciências apenas para se sentirem melhor perante a sociedade. O que sobra então é o conformismo e aqueles capazes de especular de forma livre, audaz e criativa, acabam escolhendo o silêncio.



19 de jan. de 2021

Liberalismo se resume a Humildade Intelectual

 “Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, com que se sintam humildes.”

_Leonardo da Vinci

“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.” 

_Isaac Newton

“Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.”

_Mateus 11:25

Se há uma virtude na qual grandes mestres da humanidade insistiram com notável ênfase, esta foi a humildade, em especial, a humildade intelectual. A noção de que o primeiro passo para a sabedoria é o reconhecimento da nossa ignorância ou de nossas limitações, começa, com mais ênfase, com Sócrates e seu famoso “só sei que nada sei“, mas ela se repetiu, entre crentes e céticos, entre mestres espirituais, filósofos e cientistas, ao longo dos séculos.

E houve uma filosofia política e social que tentou aplicar esta atitude de humildade aos seus objetos de análise: O liberalismo. Na verdade, o liberalismo pode ser resumido totalmente como a humildade intelectual aplicada à política e à sociedade. O liberalismo parte do pressuposto de que a realidade é sempre, mesmo em seus menores aspectos, complexa demais para ser compreendida totalmente pela mente humana. Somos e sempre seremos ignorantes de alguma forma; jamais chegaremos à verdade absoluta e podemos esperar, na melhor das hipóteses, apenas nos aproximarmos lentamente dela. É por não conhecermos a verdade perfeitamente que a liberdade se mostra necessária. Dois grandes sociólogos liberais explicaram:

“O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos.”

_Raymond Aron

“O pensador cauteloso pode raciocinar … Se em … assunto pessoais, onde todas as condições do caso eram conhecidas por mim, com tanta frequência eu calculei mal, com que frequência eu não calculo mal em assuntos políticos, onde as condições são numerosas demais, difusas demais, complexas demais e obscuras demais para serem entendidas … Fico impressionado com a incompetência do meu intelecto em prescrever para a sociedade.”

_Herbert Spencer

A noção de que, na ausência de certezas, o estado não deve agir sobre o indivíduo, está na origem, por exemplo, de uma tradição muito antiga do direito: a In Dubio Pro Reo, ou a Presunção da Inocência, a noção de que o estado não deve punir um acusado a menos que exista um alto grau de certeza acerca da culpa.

Mas é no campo da filosofia do conhecimento que a humildade intelectual se mostra mais evidentemente importante. Não é coincidência que os teóricos do método científico que ajudaram a jogar um banho de água fria nas pretensões do conhecimento, também eram politicamente liberais. O primeiro deles foi David Hume quando levantou o Problema da Indução (leia mais sobre a filosofia de David Hume aqui); ele demonstrou que mesmo as mais fortes evidências empíricas não são provas definitivas e que elas jamais nos levarão à verdade absoluta, daí saiu toda a filosofia “cética” de Hume. Antes de David Hume, o método científico que vinha sendo defendido por pensadores como Francis Bacon e René Descartes, se tornava cada vez mais arrogante e presunçoso. A ciência vinha se transformando numa fábrica de novos dogmas, ao invés de um método para se aproximar da verdade.

O Problema da Indução levantado por Hume só encontraria uma solução parcial com outro teórico da ciência, também liberal: Karl Popper. Além de ter sido ele a identificar a humildade intelectual de Sócrates como uma precursora do liberalismo, também foi ele o grande formulador o método da falseabilidade, a ideia de que uma boa teoria científica precisa mostrar os meios pelos quais ela pode ser refutada; resumindo, uma boa teoria precisa dar dicas de como ser refutada e enquanto ninguém consegue refutá-la, mesmo com essas dicas, a teoria é aceita temporariamente como verdade, mas nunca é claro, como verdade definitiva. Um exemplo: É praticamente impossível provar definitivamente a afirmação de que todos os cisnes são brancos, mas bastaria encontrar um único cisne negro para provar que a afirmação está errada. Graças às contribuições de filósofos como Hume, Kant e Popper, a ciência hoje é vista como um eterno devir e nunca como um dogma acabado.

Baseado neste mesmo raciocínio, Popper acreditava que a sociedade também deveria estar aberta ao progresso contínuo e que nenhuma sociedade deveria ser vista como acabada, baseada em verdades absolutas e imutáveis; foi com base nisso que Popper criticou Hegel e Marx, pensadores que postularam ideias sobre o Fim da História. A sociedade livre e aberta para mudanças lentas e graduais nada mais é do que a introdução do método científico na política já que este é o único método que nos permite aprender com nossos erros e corrigi-los.

Também esse é o argumento que Popper usa para criticar as utopias. Se só podemos aprender através da tentativa e erro, então não é razoável acreditar que uma reconstrução completa da sociedade conduzirá imediatamente a algo que possa funcionar.  Na tentativa de se criar um modelo totalmente novo de sociedade, encontraríamos uma série de pequenos erros que só poderiam ser resolvidos pelo método gradual, mas como a utopia é a negação do método gradual então, a cada erro, a sociedade teria que ser totalmente reconstruída novamente do zero, assim, nunca chegaríamos a lugar nenhum. O radicalismo repele a razão e a substitui por uma esperança vã em milagres políticos. Por isso, para Popper, “toda tentativa de construir um paraíso na Terra, acaba criando um inferno“.

Mas não basta que a sociedade esteja aberta ao progresso, é necessário reconhecer que somente os indivíduos livres são motores desse progresso. Foi com base na noção de que jamais conheceremos a verdade absoluta que John Stuart Mill defendeu a liberdade de expressão. Se ninguém conhece a verdade absoluta, então ninguém tem o direito de impor sua verdade simplesmente porque essa verdade é parcial, imperfeita e provavelmente está errada de muitas maneiras; somente a partir do conflito e do debate com outras ideias é que essas verdades parciais e imperfeitas podem se aperfeiçoar.

“(…) a opinião que se tenta suprimir por meio da autoridade talvez seja verdadeira. Os que desejam suprimi-la negam, sem dúvida, a sua verdade, mas eles não são infalíveis. Não têm autoridade para decidir a questão por toda a humanidade, nem para excluir os outros das instâncias do julgamento. Negar ouvido a uma opinião porque se esteja certo de que é falsa, é presumir que a própria certeza seja o mesmo que certeza absoluta. Impor silêncio a uma discussão é sempre arrogar-se infalibilidade.”

_John Stuart Mill em Sobre a Liberdade

Este raciocínio iria influenciar um dos maiores filósofos céticos do século XX, Bertrand Russel. Ele declarou:

“A essência da visão liberal está não nas opiniões que são defendidas, mas em como são defendidas, ao invés de defendidas de forma dogmática, são defendidas experimentalmente, e com a consciência de que novas evidências podem a qualquer momento, levar ao seu abandono.”

_Bertrand Russell

“O temperamento mental científico é cauteloso, hesitante e fragmentado, ele não imagina que conhece toda a verdade ou que até mesmo o seu melhor conhecimento é totalmente verdadeiro. Ele sabe que toda doutrina precisa de emenda mais cedo ou mais tarde, e que a emenda necessária requer liberdade de investigação e liberdade de discussão.”

_Bertrand Russell em Religion and Science, Oxford University Press, 1935 – pg. 245 – 246

Pela mesma razão também Friedrich Hayek, inspirado em Adam Ferguson, defendeu a superioridade da Ordem Espontânea sobre a Ordem Planejada de forma centralizada. O conhecimento sobre como a sociedade deve funcionar, está disperso na própria sociedade e é sempre grande demais para ser reunido e utilizado por um planejador central ou um grupo pequeno de burocratas. Hayek chamou a presunção de que o conhecimento sobre como organizar a sociedade poderia ser conhecido por uma autoridade central de “Arrogância Fatal”. Hayek também percebeu que os preços numa economia de mercado são sinais que carregam informações e que somente quando estes preços são formados livremente é que eles podem representar e acomodar devidamente as demandas da sociedade, informação essa que também jamais poderá ser toda reunida e utilizada por um planejador central. Ele explicou:

“O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional se caracteriza justamente pelo fato de que o conhecimento das circunstâncias sob as quais temos de agir nunca existe de forma concentrada e integrada, mas apenas como pedaços dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório, distribuídos por diversos indivíduos independentes. O problema econômico da sociedade, portanto, não é meramente um problema de como alocar ‘determinados’ recursos — se por ‘determinados’ entendermos algo que esteja disponível a uma única mente que possa deliberadamente resolver o problema com base nessas informações.”

_Friedrich Hayek em O Uso do Conhecimento na Sociedade.

Embora Hayek fosse um economista considerado “heterodoxo”, seu argumento também foi percebido por economistas ortodoxos. Paul Samuelson explica em seu livro-texto, um dos mais usados em cursos de economia em toda a história:

“Uma economia de mercado é um mecanismo elaborado para coordenar pessoas, atividades e negócios por meio de um sistema de preços e mercados. É um dispositivo de comunicação para reunir o conhecimento e as ações de bilhões de indivíduos diferentes. Sem inteligência central ou computação, resolve problemas de produção e distribuição envolvendo bilhões de variáveis e relações desconhecidas, problemas que estão muito além do alcance do supercomputador mais rápido de hoje. Ninguém projetou o mercado, mas ele funciona notavelmente bem. Em uma economia de mercado, nenhum indivíduo ou organização é responsável pela produção, consumo, distribuição e preços.”

_Paul Samuelson e William D. Nordhaus em Economics, pg. 31

Na verdade, essa percepção ultrapassa até mesmo os economistas ou pensadores sociais assumidamente liberais.

“Um verdadeiro mercado concorrencial é um instrumento eficaz para alcançar importantes objetivos de justiça: moderar os excessos de lucros das empresas singulares; responder às exigências dos consumidores; realizar uma melhor utilização e economia dos recursos; premiar os esforços empresariais e a habilidade de inovação; fazer circular a informação, em modo que seja verdadeiramente possível confrontar e adquirir os produtos em um contexto de saudável concorrência.”

_Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica – 347

“O governo não pode, a todo instante, regular as condições dos diferentes mercados econômicos, fixar os preços de suas mercadorias e serviços, ou manter a produção dentro dos limites das necessidades de consumo, etc. Todos esses problemas práticos surgem de uma infinidade de detalhes, de milhares de circunstâncias particulares que somente aqueles muito próximos dos problemas conhecem.”

_Emile Durkheim em The Division of Labor in Society, New York, The Free Press, 1933 – pg. 360

A liberdade é claro, não tem o mesmo valor para todos igualmente e embora num estado de direito, todos devam ter igual direito à liberdade, isso não significa que todos farão bom uso da liberdade ou saberão o que fazer com ela. No entanto, os gênios, os inovadores, os visionários e os empreendedores que fazem o mundo girar, precisam de um ambiente de liberdade. Foi o que explicou John Stuart Mill:

“É verdade que os indivíduos de gênio são, por natureza, uma pequena minoria; mas, para tê-los, faz-se mister preservar o solo em que crescem. O gênio só pode respirar livremente numa atmosfera de liberdade. Os gênios caraterizam-se, ex-vi termini, por uma maior individualidade do que os outros – são menos capazes, consequentemente, de se adaptar, sem uma prejudicial compressão, a qualquer dos padrões pouco numerosos que a sociedade erige para poupar aos seus membros a pena de formarem o próprio caráter.”

_John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, p. 116

No fundo portanto, a liberdade, em todas as suas formas e aspectos, é apenas a solução para o problema da falta de conhecimento que é intrínseco à condição humana.